Finanças
Como Fazer um Estudo de Viabilidade (Restaurante e Negócios Físicos)
Guia prático para fazer um estudo de viabilidade económica e financeira: o que inclui, como calcular investimento, ponto de equilíbrio, VAL, TIR e DSCR, e como saber se o negócio é mesmo viável antes de investir.
Antes de assinar um contrato de arrendamento, pedir um empréstimo ou gastar as suas poupanças, há uma pergunta que tem de responder com números, não com fé: este negócio é viável? Um estudo de viabilidade responde a isso. Este guia explica como o fazer, passo a passo, para restauração e negócios físicos.
O que é um estudo de viabilidade
É a análise que determina se um projeto gera dinheiro suficiente para cobrir o investimento, pagar os custos e ainda dar lucro — dentro de um prazo aceitável e com um risco conhecido. É mais focado do que um plano de negócios completo: concentra-se na pergunta financeira central. Muitas vezes é o primeiro passo, e é o documento mínimo que a banca exige para um pedido de financiamento.
Os 6 blocos de um estudo de viabilidade
1. Investimento inicial (CAPEX)
Liste tudo o que é preciso gastar antes de faturar o primeiro euro:
- Obras e adaptação do espaço
- Equipamento de cozinha e sala
- Licenciamento, projetos e taxas
- Mobiliário, decoração e sinalética
- Stock inicial
- Fundo de maneio — 3 a 6 meses de custos fixos (o mais esquecido)
Some tudo. Este é o valor que tem de financiar.
2. Projeção de receitas
Seja realista. Numa operação de restauração, a fórmula base é:
Receita mensal = lugares × rotação de mesas × ticket médio × dias abertos
Não use ocupação de 100%. Use taxas realistas e considere a rampa de arranque: os primeiros meses faturam menos.
3. Custos
- Custos variáveis: food cost / custo de mercadoria (tipicamente 28-35%), consumíveis, comissões de plataformas.
- Custos fixos: renda, pessoal (salários + TSU), energia, água, seguros, contabilidade, manutenção, marketing.
4. Ponto de equilíbrio (break-even)
O número mais importante do estudo. É a faturação a partir da qual deixa de ter prejuízo:
Break-even = Custos fixos ÷ (1 − % de custos variáveis)
Se precisa de faturar 30.000€/mês para equilibrar e a sua estimativa realista é 28.000€, tem um problema — antes de abrir.
5. Indicadores de decisão
Para uma análise séria (e para a banca), calcule:
- VAL (Valor Atual Líquido) — o valor que o projeto cria, em euros de hoje. Positivo = cria valor.
- TIR (Taxa Interna de Rentabilidade) — a rentabilidade anual do investimento. Compare-a com o custo do dinheiro.
- Payback — em quantos meses/anos recupera o investimento.
- DSCR — se há empréstimo, mostra se o negócio gera caixa para pagar as prestações (a banca quer ≥ 1,2).
6. Cenários e análise de risco
Faça três cenários — pessimista, base, otimista — variando as vendas e o food cost. Um projeto só é robusto se aguentar o cenário pessimista sem colapsar.
Como saber se o negócio é “viável”
De forma simples, um projeto é viável quando, no cenário base e realista:
- O EBITDA é positivo e a margem está dentro do típico do setor.
- O ponto de equilíbrio é atingível (não exige encher a casa todos os dias).
- O payback é aceitável para o seu perfil (na restauração, tipicamente 2-4 anos).
- O VAL é positivo e a TIR supera o custo do capital.
- Sobrou fundo de maneio para os meses fracos.
Se falha em vários destes pontos, o estudo não está a “dar mau resultado” — está a poupar-lhe dinheiro ao evitar um mau investimento.
Os erros mais comuns
- Otimismo nas vendas. É o erro mortal. Se está com dúvidas, use o número mais baixo.
- Esquecer o fundo de maneio. Rentável no papel, sem caixa na prática.
- Food cost sem base. “Uns 30%” não chega — precisa de fichas técnicas.
- Ignorar impostos e a realidade portuguesa. IVA, IRC, TSU e SNC mudam os números. Um modelo estrangeiro adaptado à pressa engana.
- Um único cenário. Sem cenário pessimista, não sabe qual é o risco real.
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Fazer as contas antes custa algumas horas. Não as fazer pode custar as suas poupanças. A escolha, quando posta assim, é simples.